
Um calhambeque anda devagar em uma estrada empoeirada. O dia começa a morrer e as nuvens ficando cada vez mais escuras. O único som ouvido é o assovio do vento. A paisagen parece remota e a gente imagina estar em algum tipo de terra sem-lei, perdida no tempo e na memória. Mas não, estamos em um lugar especÃfico: Iraque. Pensando nos terrÃveis eventos de sua recente história, percebemos que nessa estrada desolada o mundo termina.
No carro encontra-se um homem velho, cujos olhos azuis estão cheios de tristeza. Por um momento, fecha os olhos pra descansar por um segundo, mas, realmente, ele nunca irá descansar de novo. Este senhor tem visto muitas coisas durante sua vida: guerra, jovens sendo mortos, famÃlias separadas e mãe chorando por suas almas, suplicando pelo improvável retorno dos filhos. Ele testemunhou o insuportável e não pode esquecer. Está almadiçoado, porque é um sobrevivente, carregando o peso da história de seu paÃs no fundo da alma. Um alto-falante no carro aponta em direção a um céu indiferente, transmitindo mensagens, lamentações e preces de pessoas. Estas são cartas que não podem ser escritas, apenas desabafadas para o mundo. E este é o trabalho do velho homem: gravar estas mensagens como uma obrigação infernal – devemos lembrar que o inferno reside apenas na terra.
No inÃcio do filme, um texto explica sobre o genocÃcio da campanha Anfal durante o regime de Saddam Hussein nos anos oitenta, onde quase 182.000 curdos foram exterminados. Homens foram enterrados vivos em túmulos lotados e mulheres abusadas e mandadas para campos de trabalho ou bordéis. Este filme é como se fosse uma carta para os sobreviventes desse horror e o mais tocante é o uso da paisagem e dos elementos naturais para expressar o sofrimento através de poesia. Gritos e silêncio convivem no mesmo lugar, expostos ao vento que leva preces não-atendidas para aqueles que foram perdidos. Esta atenção para a paisagem emocional parece nos dizer que o tempo passa e a poeira pode até cobrir as cicatrizes, mas a dor sempre continua a mesma.
Enrique Vivar