
Crise. Por meses, emissoras de TV, estações de rádio e jornais não tem nada a dizer a não ser essa palavra de cinco letras. Como um eco dessa difÃcil situação sócio-econômica, Mathias Gokalp assina Nada pessoal.
Levemente kafkiano , esta farsa intimista e sombria acompanha o confronto entre o gerente e os empregados da companhia Muller, uma empresa farmaceutica fictÃcia. Durante uma noite gelada de inverno, dentro de uma luxuosa mansão particular, estão todos prestes a participar de um estranho tipo de evento social de trabalho. Stranho porque, qual afinal seria o objetivo dessa refinada recepção que se transforma rapidamente numa avaliação coletiva onde exames orais frente a frente são interrompidos por rumores de venda da empresa? Quem está determinado a esfolar os outros e aque preço? Pode a liberdade de expressão, coragem e impertinência de alguns elétrons livres e párias competir com a frieza capitalista daqueles que decidem ? Ao final do dia, qual comportamento deveria ser escolhido ? Entrar no jogo, orgulhoso de seu terno Agnes B. como Bruno, o técnico e ator interpretado por Jean-Pierre Darroussin ; sindicalizar-se, como Gilles (Dennis Podalydès), ou deleitar-se antecipadamente por uma precoce e confortável aposentadoria à s custas de alguém ? E a auto-estima nisso tudo ? E o amor ?
Conduzido por atores e atrizes igualmente talentosos (de Pascal Greggory, simplesmente perfeito como um frio e odioso gerente de olhos azuis, à Bouli Lanners, bastante comovente, especialmente durante sua versão bêbada do grande sucesso de Johnny Hallyday, Je te promets), Nada pessoal é um surpreendente filme de estréia. O ponto de vista de Mathias Gokalp é ao mesmo tempo lúcido e surrealista ; sua narrativa caleidoscÃca ao estilo de Alain Resnais é inteligentemente desenvolvida. E sem dúvida alguma, não é por acaso que essa tragicomédia existencilaista comece com tomadas aparentemente clÃnicas de corpos estripados e termine com cenas de reconciliação, onde o personagens principais falam com a melhor das intenções. Como mudar da ganância pelo poder (Vanitas) para a honesta alegria de estar juntos.
Emilie Padellec